Os benefícios da solidão

O sentimento de solidão acomete o ser humano desde a mais tenra idade e se prolonga pela vida adulta.

À primeira vista, falar dos benefícios da solidão pode soar estranho e não combinar com o fato de que as pessoas são seres fundamentalmente solitários que precisam de conexões afetivas significativas com os outros para se sentirem vivas.

A constituição da subjetividade, portanto, se dá na nossa relação com o outro. Mas, não podemos esquecer que a convivência com a nossa própria solidão é uma marca de maturidade emocional e de crescimento interior, e por isso tem sua positividade.

Porém, não estamos nos remetendo àquela primeira ideia de solidão que pode vir à mente associada ao isolamento, à recusa de convívio com o outro, fonte de estresse físico e mental, por temer atravessar a porta que conduz para a rua, onde as coisas não são tão fáceis, e enfrentar as frustrações, as decepções. Essa pessoa prefere retirar sua libido, seu interesse pelas pessoas e pelo mundo, ou seja, prefere se afastar do mundo exterior e abandonar sua relação erótica com as pessoas e as coisas, pois elas “dão trabalho”. Para ela, o contato com o mundo é muito ameaçador porque destinado somente a desencontros e incompreensões, sem perceber que também oferece aprendizados e prazeres.

Sabemos que uma coisa é certa: gente precisa de gente. Daí a importância da capacidade de nos vincular e nos relacionar com as pessoas, mesmo que não encontremos nossa “cara metade”. Podemos observar que muitas pessoas moram sozinhas, mas não se isolam, ou seja, elas mantêm contato consigo mesmas e com uma grande rede de amigos e parentes.

Vamos, agora, tentar compreender as palavras do filósofo Emmanuel Lévinas ao dizer que “a solidão não é apenas um desespero e um abandono, ela é, também, uma virilidade, uma fertilidade e uma soberania”. Essas palavras expressam o estado que leva o sujeito a olhar para si mesmo, em sua condição de estranho, ao invés de olhar somente para os outros.

No entanto, observamos que as pessoas não suportam se olhar no espelho. Na agitação das metrópoles encontramos cada vez mais gente que se sente só. Na tentativa de evitar que a solidão seja notada, muitas pessoas correm de um lado para o outro sem parar; em casa deixam a televisão ou o rádio ligado durante o dia inteiro, ou permanecem horas a fio navegando na internet. Ou, se entregam a qualquer outra atividade que dissimule o silêncio.

Acostumadas ao ruído do mundo, que embaralha os sentimentos e as percepções, essas pessoas têm medo de se silenciarem, de estarem consigo mesmas e se depararem com seu próprio rosto. Pois, é nesse momento que os fantasmas aparecem. Ou, como diria Guimarães Rosa, que os demônios nos assustam. Mas, como não toleram pensar que possuem defeitos, cometem erros, enganos; como não aceitam que é impossível gostar de si próprias, e do outro, por inteiro, preferem fugir desse encontro íntimo e, então, buscam qualquer maneira de se “distrair”.

Contudo, são nos momentos de silêncio que temos a oportunidade de nos beneficiarmos de um contato com o nosso manancial interior. Quando nos desligamos do mundo por algumas horas podemos realizar uma peregrinação em direção ao íntimo de nós mesmos, o que, no entanto, perturba aqueles que não costumam praticá-la.

A solidão gera o silêncio que, por sua vez, gera o vazio na mente. Porém, é preciso não confundir silêncio com isolamento. A experiência de solidão pode ser criativa na medida em que o vazio é o terreno aberto para o surgimento de novas reflexões, é a pista de decolagem para novos rumos, para mudanças. Sem encontrar esse espaço, a pessoa não cria condições para o auto conhecimento e, portanto, não consegue “cuidar de si”.

Viver no meio do barulho não significa que estejamos nos sentindo acompanhados por alguém. É comum sentirmos solidão a dois, no meio de uma multidão, numa festa com os amigos, no trabalho e até mesmo dentro do próprio lar com a família. Nesses momentos, a solidão é um estado interior que remete ao sentimento de que algo ou alguém está faltando, quer estejamos em companhia de outro(s), quer estejamos a sós. Muitas vezes, ao nos sentirmos sozinhos no mundo, comemos demais, fumamos demais, bebemos demais, exigimos demais dos outros, etc. com o intuito de nos preenchermos. Dessa forma, o sentimento de solidão é estruturante para a constituição do sujeito, porque sentir a dor de nossa solidão nos faz tomar consciência de que existimos como seres singulares em relação aos outros, que os outros são diferentes de nós e que não podem nos preencher por completo.

O poeta Rainer Maria Rilke percebeu que “uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém, durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só”.
Habitualmente solitários em seu ofício e convivendo apenas com seus personagens imaginários, os escritores produzem seus romances, suas novelas, seus contos, suas crônicas, suas poesias. O processo criativo exige esse recuo em que é preciso abraçar a solidão. As obras de arte, as composições musicais são igualmente criadas no momento em que o sujeito se permite estar em sua própria companhia. “Quem não sabe povoar sua solidão, também não sabe estar só no meio da ocupada multidão”, diz-nos o poeta francês Charles Baudelaire.

Muitas vezes, a solidão é acompanhada de tristeza, principalmente nas situações que envolvem a perda de um ente querido, mas ambos os sentimentos estão longe de ser considerados como deformidade ou defeito moral, na medida em que são estados que nos permitem saber sobre as dores do viver.

Assim, a experiência de solidão se apresenta como uma possibilidade de emergência da singularidade humana e, diferentemente do isolamento mortífero, ela é potência criativa. Uma pessoa, para ser capaz de se sentir bem consigo mesma, precisa ser uma companheira de si própria.

Errar é humano

O homem é um ser falível por natureza. O erro diz respeito a uma falha estrutural da constituição humana, fato que resistimos a aceitar porque queremos sempre acertar. Temos medo de correr riscos, pois eles implicam assumir a responsabilidade das consequências. Como não nascemos prontos e acabados, o jogo de tentativas e erros que experimentamos desde muito cedo na vida é a base para o conhecimento de si e do mundo. Errar faz parte do processo de amadurecimento. As experiências do cotidiano muito nos ensinam, independente da escolarização. Por exemplo, se a criança puser a mão no fogo do fogão, ela vai se queimar.

É importante enfatizar a nossa dificuldade em reconhecer que o erro, o fracasso e a insuficiência fazem parte do universo humano. E, se os adultos – pais, professores, etc. – não conseguem exprimir para as crianças e para os jovens seus próprios erros, enganos e limitações, eles aprenderão que não podem errar e que têm que ser perfeitos. Os adultos tentam a todo custo evitar que seus filhos errem, sofram, e enfrentem dificuldades, frustrações e desilusões. Porém, é por meio do exercício desses impasses que a criança e o jovem desenvolverão recursos para perseverar diante dos obstáculos, e criarão resistência para lidar com a adversidade. Caso contrário, se sentirão despreparados para os desafios da vida e hesitarão em ter o prazer de se lançarem em novas vivências e descobertas.

Há um grande mal-estar, hoje, sobre a existência do erro no ser humano devido à exigência de desempenho exemplar e eficácia nas ações. Assim, o erro é mal visto e considerado uma fraqueza, e a ordem do dia é ter sucesso! Ou melhor, mais importante do que o sucesso é passar uma imagem de sucesso. No mundo dos negócios, o profissional é mais valorizado por ser “ágil e garantir a produtividade” do que pelos valores que ele expressa.

O erro pode ser produtivo se soubermos aprender a partir dele. Sofremos como cães pelos enganos que cometemos: atos impensados, amores desfeitos, escolha profissional desprazerosa, só para citar alguns. Mas, aprendemos muito por meio das experiências de dor, ou seja, pelo sofrimento adquirimos conhecimento. Erramos e sofremos, mas, com reflexão, sorte e memória, aprendemos algo novo. Aprendemos a evitar cometer os mesmos erros. As vivências dolorosas nos tornam mais humanos e o fracasso mais flexíveis, além de nos darem a consciência de que não somos deus. Ao admitirmos um erro, poderemos procurar consertá-lo, mudando de caminho ou de procedimento. É a possibilidade de “mudança de direção”, a conhecida metanoia dos gregos antigos. Assim, o erro se torna criativo gerando transformações e novas condutas.

Porém, nem sempre conseguimos corrigir nossos erros e certos erros podem ser fatais, como por exemplo, uma determinada falha médica cirúrgica. Além disso, não é raro encontrarmos pessoas que não tiram nenhum ensinamento dos erros cometidos, e neles persistem.

Uma forma típica do mundo moderno é a pessoa tentar negar o erro e acreditar que pode ter controle de tudo. Daí, o que nos escapa é visto como um erro no sentido do descontrole, daquilo que foge ao controle, o que também é parte estrutural da espécie humana. Então, o homem moderno, se vê numa sinuca de bico: passamos a controlar sempre mais e melhor, por meio de altas tecnologias – câmeras de TV, catracas com cartões magnéticos, controle genético, domínio do tempo etc. – mas, na realidade, não temos garantia de nada! A busca de terrenos estáveis, de pontos de referência fixos é uma maneira de querermos controlar o incontrolável.

Em suma, não adianta estrebuchar porque errar é humano e vamos todos errar em nossas existências!


Querer não é poder

Frustrar uma criança é impor-lhe limites, é dizer-lhe “não”, palavra que ninguém gosta de ouvir. A palavra “não” coloca um limite. Nós não podemos e nem devemos atender a todos os pedidos da criança porque os desejos têm uma medida muito maior do que a razão; nós queremos muito mais do que podemos. Mas, sabemos o quanto é difícil para muitos pais exercer a função de mostrar para a criança que querer não é poder.

Muito cedo na vida o bebê já escuta a palavra “não”, já que os pais querem protegê-lo de perigos dizendo “não pode”, “não pode mexer nisso”, “não pode comer aquilo”. Mas falar “não” para a criança pode deixar os pais, avós e professores confusos e perdidos, pois eles costumam ouvir dois pontos de vista diferentes: de um lado, ouvem que não devem falar “não” para a criança, porque a traumatizariam e inibiriam seu desenvolvimento; de outro lado, ouvem que falar “não” para a criança é necessário para prepará-la para a dura realidade da vida, para discipliná-la e ajudá-la a se organizar e a amadurecer.

Na realidade, ambas as situações são fundamentais. É preciso tanto falar “não” como também dizer “sim”. Se evitarmos dizer “não” podemos nos sentir explorados e abusados pelo outro, e o outro não adquire a noção das limitações de cada pessoa.

Além disso, a criança só adquire o conhecimento do significado do “sim” se ela vive a experiência da negativa. Isso se dá, por exemplo, quando muito cedo na vida o bebê quer mamar e a mãe demora um pouco para poder atendê-lo. O bebê, então, não só ouve o “não” como vive a experiência da ausência, tem a sensação do “não”. Daí a criança vai aprendendo que não pode ter tudo o que deseja e na hora que deseja. Junto com essa experiência vai surgindo também a noção de que ela deseja algo.

Com o passar do tempo, a criança começa a ouvir o “não” dirigido às suas condutas, como “não pode fazer xixi no chão”, “não pode bater no irmãozinho” etc. Embora desde cedo estejamos convivendo com as restrições, é muito difícil para as pessoas aceitar os limites. E muitas delas passam a vida inteira se rebelando contra eles e chegam a sonhar que podem eliminar todos os “nãos” da vida, para daí se tornarem livres. Mas, existem os limites em relação a nós mesmos: “não sei”, “não consigo”, “não tenho”, “não posso” etc. E, ainda, os limites das diversas pessoas com quem nos relacionamos: ele “não sabe”, ele “não está”, ele “não pode” etc. Além disso tudo, temos também os limites impostos pela lei e os da espécie humana. E, ainda mais, é preciso aguentar receber uma negativa, uma frustração, para daí ser capaz de dizê-la para o outro. Vejam o mar de limites com que nos defrontamos para viver. É desde pequeno que aceitamos, a duras penas, esses limites. É imprescindível que se aprenda a lidar com eles, porque não há possibilidade de evitá-los, pois viver junto exige limites.

Observamos, com muita frequência, que as crianças não suportam ouvir “não” e reagem, portanto, fazendo birra, esperneando, jogando-se no chão, enfim fazendo um carnaval. Em geral, para abafar o escândalo, os pais acabam por ceder, embora contrariados. E a criança vai criando a ideia não só de que sua agressividade tem muito poder, como também de que sendo agressiva ela pode conseguir tudo o que deseja. Então surge o medo daquilo de que ela é capaz com sua agressividade, pois uma coisa é ela imaginar algo e outra é acontecer de fato. Portanto, se possível, não deem muita importância para os acessos de fúria de seus filhos quando frustrados.

Muitos pais acham que é maldade um bebê ser submetido, tão precocemente, à experiência de frustração. Mas, ao contrário, ela é inevitável e fundamental para o desenvolvimento de qualquer pessoa. É a partir da frustração, da ausência daquilo que o bebê quer que ele desenvolverá suas capacidades, como tentar substituir aquilo que ele não está conseguindo por outra coisa, como imaginar a mãe, começar a pensar, aprender a berrar, reclamar, falar.

A criança pequena tem a ilusão de que é toda poderosa, de que é o centro do mundo, que tudo acontece por causa dela, que basta ela pensar em algo que logo acontece. Mas com o decorrer do tempo ela vai percebendo que as coisas não são bem assim e que ela não é tão poderosa, que não consegue tudo o que deseja e que não é dona do mundo e de ninguém. Enfim, ela vai percebendo seus próprios limites e os dos outros e que cada pessoa existe separada do outro e que os outros vivem independentemente dela.

Se, de um lado, o “não” é uma espécie de estraga prazer, de outro é uma proteção e proporciona um sentimento de segurança. Uma criança dificilmente teria um desenvolvimento emocional e intelectual sem ter sofrido a presença do “não”, pois ela não conseguiria aprender a pensar e a falar.

Brincar é preciso

Durante muito tempo a criança foi tratada como um adulto em miniatura e não era percebida como alguém que tem capacidades e interesses diferentes do adulto. Mas, hoje sabemos que a criança tem suas próprias características.

Muitos pais consideram que a criança brinca somente porque gosta ou para passar o tempo porque não tem outra coisa para fazer; que o jovem brinca, tocando em banda, fazendo teatro, jogando futebol etc. porque é preguiçoso e quer levar a vida na flauta. Brincar, porém, não é um passatempo nem uma evasão, pelo contrário, é uma necessidade, é fundamental para o desenvolvimento psíquico da criança. Portanto, é seu direito, e até mesmo do jovem e do adulto.

Nem toda criança pode brincar livremente e isso compromete o seu desenvolvimento, principalmente a criatividade. Há tantas crianças trabalhando, outras jogadas na rua e ainda outras entupidas de atividades de forma que não sobra tempo para brincar. O brincar, além de divertido, não deve ser um privilégio, ele é uma necessidade e a criança que não brinca não pode ser criança de verdade. Pela brincadeira podemos examinar a vida psíquica da criança.

A cabeça da criança não é tão simples como pode parecer. Ao brincar a criança consegue lidar com muitas coisas complicadas que passam pela sua mente, tantos sentimentos fortes, sonhos e pesadelos que a deixam confusa, pois ela ainda não os compreende. E aquilo que não compreendemos provoca alguma reação, de medo, de raiva, de aversão etc. É por meio da brincadeira que a criança consegue expressar certos sentimentos e angústias que ela não conseguiria fazer de outra forma.

Além disso, a brincadeira é uma das formas mais eficazes de se estabelecer uma relação com a criança. Repare como a criança aprende com mais facilidade quando a professora ensina a matéria de forma lúdica, ou seja, por meio de brincadeiras, de músicas, de jogos etc.; como o jovem se sente mais próximo dos pais quando podem conversar de forma leve, no dia a dia, sobre futebol, sobre moda ou podem até mesmo “jogar conversa fora”. Na diversão, o entrosamento é mais espontâneo.

Pensa-se, geralmente, que brincar é uma atividade somente da criança, e que o adulto deve levar a vida a sério, e que gente séria não brinca. Porém, o contrário do brincar não é a seriedade, mas a realidade, afirma Freud. Por isso dizemos que o lúdico – palavra que significa literalmente “em jogo”, ilusão, derivada de inlusio, illudere ou inludere – é tão sério. O brincar é algo sério não só para a criança como também para o adulto, pois diz respeito aos momentos de ilusão e de devaneios, isto é, ao tempo em que o adulto sonha acordado e imagina projetos para sua vida. O antropólogo Johan Huizinga afirma que “o homem joga somente quando é homem no pleno sentido da palavra, e somente é homem pleno quando joga”. Portanto, levar a vida a sério, isto é, ter responsabilidade consigo próprio e com os outros não implica ser sisudo, zangado, emburrado, fechado, rígido ou mal humorado.

No passado, nos séculos XVI e XVII, o adulto não trabalhava tanto como na atualidade, o que lhe possibilitava divertir-se e dedicar-se à brincadeira na companhia das crianças, segundo Philippe Ariès. No mundo de hoje, ao contrário, o envolvimento do adulto com jogos e/ou com o lazer tendem a se assemelhar às atividades de trabalho, associadas às ideias de rendimento e produção.

Os adultos também podem brincar ao usar o senso de humor, ao cantar, ao dançar, ao contar piadas, ao escrever, ao ler etc. Os adultos que assim se divertem trazem dentro de si a criança que já foram no passado. O senso de humor torna a vida mais prazerosa e ameniza as exigências e as cobranças. O brincar é o tempero da vida e pertence a todas as idades. Portanto, brinque e torne sua vida saborosa e apetitosa.

Você tem medo de quê?

“De que se tem medo? Da morte, foi sempre a resposta. E de todos os males que possam simbolizá-la, antecipá-la, recordá-la aos mortais”, reflete a filósofa Marilena Chauí. Assim, tememos o grito e o silêncio, o vazio e o infinito, o efêmero e o definitivo, a culpa e o castigo, o amor e o ódio, o perigo e a covardia, o incesto e a pureza, o esquecimento e a lembrança, a doença e a saúde, os medrosos e os temerários, os ditadores e os democratas. Tememos o medo. E, morreremos de medo.

E, ainda, tememos as infinitas perdas afetivas que podem nos assombrar como as perdas precoces, particularmente do amor materno e de pessoas significativas, da garantia de segurança e de confiança, e das renúncias que teremos que processar, a duras penas.

Desde que nascemos sentimos medo, ou seja, o medo nasce junto com o ser humano, com a nossa condição de desamparo. E ele é também nossa proteção na medida em que antecipa certos riscos. O medo é um dos sentimentos que permitiram a sobrevivência e multiplicação da nossa espécie. Graças a ele, nossos ancestrais escaparam dos ataques de animais selvagens e das ameaças da natureza. O reconhecimento de nossos sentimentos de medo é um instrumento de alerta valioso que nos prepara para evitar os perigos, pois é “(…) o medo, nosso pai e nosso companheiro”, segundo o poeta Drummond.

E, ao lado do medo anda a coragem, como bem nos lembra Guimarães Rosa: “Carece de ter coragem” (…) “que é que a gente sente, quando se tem medo?”. A coragem é a tentativa de superarmos a angústia do viver. É preciso coragem para viver, para ser. Coragem de dizer aquilo que se pensa mesmo que seja desconfortável; coragem de ser um sujeito e não uma massa amorfa; coragem de se exprimir mesmo quando teríamos que nos calar porque é mais cômodo. Tudo isso está ligado à esperança de que algo produtivo aconteça. Não é otimismo ingênuo, mas construção e reunião de vários fragmentos da existência que dão um sentido para nossa vida.

Desde a antiguidade, os epicuristas, filósofos que pregavam a busca dos prazeres moderados, já se dedicavam a nos libertar dos medos e ensinavam as pessoas de que não há nada a temer da morte e dos deuses, e que a dor é suportável.

Cada época pode apresentar medos mais característicos. “Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma nova qualidade de medo!”, também nos ensina Guimarães Rosa. A contemporaneidade não inventou o medo, mas existem medos específicos dela. Se, vivemos hoje em uma sociedade cada vez mais obcecada não só pela segurança, pelo controle como também pela ideia de sucesso, presenciamos a exacerbação de um tipo de medo, que é o de fracassar profissionalmente, pois o nível de exigência está cada vez mais alto.

Todos nós já tivemos fracassos em alguma época da vida. De fato, quanto mais enfrentamos os riscos de uma nova experiência, maior será a probabilidade de fracassarmos, mas, ao mesmo tempo, de atingir o que queremos. Não é fácil acertar quando experimentamos pela primeira vez. Mas, se tivermos medo de fracassar, teremos medo de correr riscos e ficaremos estagnados. Samuel Beckett, dramaturgo irlandês, encoraja-nos com o revigorante ar do fracasso. Tentar de novo, fracassar de novo, fracassar melhor.

O crescimento requer uma disponibilidade para correr o risco do fracasso, porém, fracasso não significa, necessariamente, derrota. Acreditar que por ter falhado em algumas tentativas “somos um fracasso” representa uma atitude de derrota. Mesmo quando temos muita experiência, também “comemos bola”!

O homem é aquele ser que sabe que morre, embora não queira saber. E também morre de medo de morrer. A presença da morte pode nos unir por laços que vão além dos institucionalizados. No entanto, nem sempre essa presença nos articula e, em geral, tratamos de esquecê-la, como se não passasse de um acidente inesperado. Como diria o filósofo Blaise Pascal: “Os homens, não tendo podido curar a morte, a miséria, a ignorância, resolveram, para se tornarem felizes, não pensar nisso”.

O processo psicanalítico está ligado às realizações criativas que envolvem, sobretudo, o trabalho de luto, a dor da renúncia a certos desejos de que o sujeito resiste em abrir mão. Por isso, a psicanálise desperta tanto medo. O tratamento psicanalítico assim como a vida é uma situação de crescimento e perda que exige coragem.

Da vida, restam-nos parcas, mas preciosas certezas: “a certeza de que estamos sempre começando… a certeza de que precisamos continuar… a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar… Portanto, devemos fazer da interrupção um caminho novo… da queda, um passo de dança… do medo, uma escada… do sonho, uma ponte… da procura, um encontro…”, sugeriria nosso poeta Fernando Pessoa.

Quem é o culpado?

Quem ainda não experimentou momentos de culpa ou não encontrou na família alguém preso por uma culpabilidade sem causa e sem conserto? Aquele que se sente sempre o culpado de todas as desgraças dos outros, mesmo sem o ser? Amor e ódio, paixão e melancolia parecem estar na origem de uma culpabilidade que faz com que nos sintamos mais culpados do que todas as outras pessoas juntas. É o que chamamos de expiação da culpa que, em sua crueldade, provoca atos de punição, de autoflagelação, de sacrifício.

Freud diz que a marca distintiva da nossa humanização é o superego, aquele agente vigilante, e que o decorrente sentimento de culpa é a garantia do salto da natureza para a cultura. Se, por um lado, o sentimento de culpa é um elemento fundamental na gênese do humano, por outro, em excesso atenua o vigor da vida, como na melancolia, ou seja, apequena e enfraquece o que é próprio do humano, o desejo.

Esse pensamento freudiano sobre a culpabilidade do desejo, tão bem tratado na antiguidade, em Fedra, ressoa os ecos da crítica do filósofo Nietzsche a respeito da função inibidora ou, até mesmo, paralisante da culpabilidade explorada pela moral e pelas religiões, que se fundam numa culpabilidade atávica – o pecado. Os religiosos maníacos em patrulhar os vícios e as virtudes, as paixões e os desejos, e crentes de sua “pureza e castidade”, triunfam ao apontar o dedo acusador para o pecador, visto como verme miserável e sujo.

O ideal de perfeição, característica do contemporâneo, contribui para o desenvolvimento da culpa na medida em que o aparecimento de qualquer erro, inerente a todo processo de aprendizagem, é sentido como um fracasso.

Além disso, a religião da perfeição exacerba as frustrações, pois o sujeito se vê insuficiente para realizar seus projetos de acordo com expectativas tão pungentes. Instala-se então um círculo vicioso de insatisfação, frustração, culpa e, por fim, necessidade de atribuir a alguém ou a alguma circunstância os supostos fracassos. É a caça de um culpado com o propósito de fugir de si mesmo – auto alienação –, e de se aliviar da própria culpa.

Assim, para obtermos a nossa dramática liberdade, sempre tão precária, cabe-nos desenvolver o árduo trabalho de articulação entre a culpa neurótica e a responsabilidade, ou seja, a transformação da alienação e da expiação em responsabilidade pelos nossos desejos. E, talvez, ainda tenhamos que cuidar do risco de nos sentirmos culpados por não mais carregar a cruz da culpabilidade!

Abuso Sexual

O abuso sexual corresponde aos atos impostos ao menor por um adulto, que excede seu poder sobre aquele sob a forma de toques, assédio, voyerismo, sedução, estupro e exploração sexual. É a sexualidade como abuso. É o sexo forçado e não consentido. É a manipulação do mais fraco. É, enfim, a amostra nua e crua da desmedida humana forçando os limites da civilização, numa mistura de crueldade, violência, sofrimento e alienação.

O desequilíbrio entre as partes é regra nessa zona obscura: o(a) professor(a) que seduz a(o) aluna(o), o padrasto que estupra a enteada etc.

Nesse contexto, o mais perturbador é acompanhar a criança na sexualidade forçada, pois aí a desigualdade atinge o ponto máximo.

O abuso sexual intrafamiliar é, psicanaliticamente falando, a consumação do incesto, o “terror” sendo vivenciado. Ele envolve a sexualidade do adulto e, também, a sexualidade da criança, que se sente, ao mesmo tempo, inocente e culpada, devido à concretização, tão abrupta, de suas fantasias agressivas e eróticas dirigidas ao casal parental. É o trágico que se instala ao confundirmos a “linguagem da ternura” da criança com a “linguagem da paixão” do adulto, afirma o psicanalista Sandór Ferenczi.

Essa distinção diz respeito ao fato de que as crianças brincam com a ideia de ocuparem o lugar do progenitor do mesmo sexo, para tornar-se o cônjuge do sexo oposto, mas, vale ressaltar, apenas na imaginação! Se, no momento dessa fase de ternura, impõe-se às crianças um amor diferente daquele que elas suportam, teremos, inevitavelmente, uma ocorrência traumática, de ordem sexual, que acarretará graves consequências psíquicas. Podemos ter como desdobramentos a depressão, a melancolia, a síndrome da criança adaptada e passiva, lesada em sua autoestima e acossada, ou futuros adultos também “abusadores”, por meio do mecanismo de identificação com o agressor.

O tabu do incesto é o primeiro “não” da biologia que possibilita o nascimento da cultura. É convicção, entre os antropólogos, que a proibição do incesto significa que há regras fundamentais que são da esfera da cultura, e não se reduzem ao mundo natural. Na psicanálise, grosso modo, a proibição do incesto significa a aceitação de limites aos nossos desejos: saber que não posso ser e ter tudo, e que para realizar de modo satisfatório o que posso ser é preciso abrir mão de alguma coisa.

O abuso sexual contra crianças e adolescentes é um dos segredos de família mais bem guardados. É o conhecido fenômeno do “desmentido do acontecimento” – a afirmação de que nada aconteceu e de que nada deve ser dito – precisamente no quadro das seduções incestuosas. É de esperar que, nessas famílias, o tabu do incesto inexista, porém, é a palavra sobre o ato que é tabu. E é esse tabu que protege o totem.

O tratamento psicanalítico, por sua característica de autoridade e confiabilidade, pode funcionar como um espaço para a criança ou o adolescente ser escutado no seu trauma, de modo a propiciar a ruptura do pacto da mordaça que envolve as situações de abuso sexual, principalmente as que ocorrem no seio da família e foram cometidas pelos próprios pais.

Essas experiências trágicas precisam ser pensadas e trabalhadas numa terapia, pois a possibilidade de sentir, interpretar, perceber as próprias necessidades e desejos – em suma, a possibilidade de ser alguém – depende crucialmente do desenvolvimento da autoconfiança, do autorespeito e da autoestima.

Inveja

A inveja, velha dama indigna, de má reputação e péssimo caráter, tem por símbolo a serpente. Um dos sete pecados capitais, sorrateira e causadora de extrema vergonha, é capaz, com um simples olhar, de murchar plantas e secar pimenteiras. Melanie Klein foi uma das psicanalistas que mais se debruçou na observação e compreensão desse sentimento. Para ela, durante toda a nossa existência deparamos com a inveja, que é bem mais corriqueira do que gostaríamos, entranhada que está no seio da família e no coração de todos nós.

Santo Tomás de Aquino definiu a inveja como tristitia de alienis bonis, ou seja, tristeza em relação às coisas boas dos outros. A inveja é aborrecimento com a competência de algum aspecto valorizado no outro. O atributo invejado, sempre admirado – por exemplo, a generosidade, a tolerância, a sabedoria, a coragem –, é aquilo que sinto que o outro possui, mas do qual não me sinto possuidor nem capaz de vir a possuir – trata-se, portanto, de algo inacessível. A premissa é: se o outro possui e eu não, não aguento essa falta e quero destruir no outro o que não tenho, denegrindo-o, desprezando-o. Se eu não possuo, o outro também não deve possuir.

Um homem pode querer destruir, por meio da desqualificação, do desprezo, a possibilidade de gestação da mulher; uma filha pode invejar algum aspecto da vida adulta da mãe ao qual ainda não tem acesso, como a autonomia, a experiência, a sexualidade, e por isso denegrir esses aspectos na mãe; uma jovem pode ficar com o namorado da amiga não porque o escolheu para si, e sim porque não quer que ele fique com a outra; os pais podem invejar a juventude de um filho; uma mulher infértil pode invejar a fertilidade de uma amiga, e assim por diante.

Não raramente, a inveja é confundida com a admiração, e aqui se faz necessária uma distinção. Um dos destinos da admiração pode ser o desejo de se assemelhar ao outro admirado, porém o sentimento invejoso, ao contrário, tem a intenção de danificar, espoliar, despojar, prejudicar, saquear, privar ilegitimamente algum aspecto admirado no outro. O sujeito possuído de inveja deseja ridicularizar, inferiorizar, ou, sutilmente, ignorar aspectos da pessoa invejada.

Assim, a inveja é expressão dos impulsos destrutivos: é ódio, agressão, desejo de fracasso, de sofrimento, de aniquilamento do outro admirado. É contentamento com a desgraça alheia. Poderíamos dizer que se trata de uma identificação pelo negativo.

Apesar de todas as palavras que podemos atribuir ao sentimento de inveja, ele é, como diria Nietzsche, um sentimento “humano, demasiadamente humano”.

Da amizade

Da amizade

A natureza criou os homens para viver em grupo, quer na família, quer na sociedade, e os laços entre as pessoas se estreitam à medida que nos aproximamos do outro, por meio da troca de ideias e, principalmente, de afetos. Uma das grandes teses antropológicas, de Lévi-Strauss, é que onde houver o humano haverá o social.

Amizade, em grego, diz-se phylia – que quer dizer “amor fraterno” –, étimo que abrange a relação do homem com o cosmos, a physis, a cidade, a relação consigo mesmo, com o outro e com os deuses. A phylia já se encontra na Ilíada de Homero com o valor de carus, dileto amigo. A amizade diz respeito ao “prazer de viver em companhia”.

Aristóteles afirmava a necessidade humana de ter amigos como fonte de relações afetivas. Para ele, a mais bela amizade seria a de duas pessoas que se unem para, no diálogo, encontrarem a verdade. Portanto, a amizade é um modo de se relacionar com o outro que envolve fundamentalmente a troca. E seu desenvolvimento é trabalho árduo e progressivo: é preciso haver o desejo de busca de contato com o outro, de conhecer o outro e, para conhecê-lo, precisamos nos aproximar dele.

A amizade é aquela relação tecida no bem-querer e no bem-fazer em que os amigos suprem reciprocamente as limitações uns dos outros. É um vínculo de identificação e diferenciação, isto é, nela se fazem presentes não somente as afinidades, mas, também, as diferenças. Grande parte da vitalidade de uma amizade reside no respeito pelas diferenças, não apenas no desfrute das semelhanças, embora, numa visão “idealizada”, eu possa esperar que meu amigo seja meu espelho – alguém que sente, pensa e age exatamente como eu.

A amizade está intimamente ligada à ética. Encontrada pela primeira vez em Homero, a palavra ethos significava “morada”. Não sendo arquitetura ou técnica de construção, ethos é habitat, “toca”; ethos não é, porém, unicamente o local de habitação, a moradia, mas o fato e a maneira de habitar um lugar.

Algo semelhante se passa com as palavras asti e pólis (ambas com o significado de “cidade”). Se a primeira – asti – se refere à cidade em seus aspectos materiais, ruas, monumentos e edificações, a pólis é sua forma de vida, seu espírito, seu caráter, seu ethos. O campo exemplar do conhecimento de si e do outro foi a pólis grega clássica que inventou, a um só tempo, a filosofia, a tragédia, a democracia; nela, os indivíduos se reuniam pelo laço afetivo da amizade, por uma aproximação espontânea e consciente.

O oposto da amizade é a tirania. O tirano é infeliz porque não tem amigos nem colaborador fiel e vive no medo, tanto pelo que inflige a seus súditos, quanto pelo sentimento de desconfiança acerca daqueles que o cercam. O tirano é obrigado a viezar, dissimular suas verdadeiras ações e intenções para enganar os outros; aqueles que o cercam devem, por sua vez, adulá-lo, simular lealdade, conspirar contra os demais para conseguir os favores do tirano. Quando se reúnem, é um complô e não companhia; eles não se entretêm, eles se entre-temem. Não são amigos; são cúmplices.

Como lembra-nos a filósofa Olgária Matos, podemos dizer que se pela política nós nos humanizamos, pela amizade nós nos divinizamos.

A busca da própria vida

A palavra desejo, em sua origem latina, deriva-se do verbo desiderare que, por sua vez, vem do substantivo sidus (no plural, sidera), e significa a figura formada por um conjunto de estrelas, isto é, a constelação. A partir de sidera temos considerare – levar em consideração, examinar com cuidado, respeito e veneração; e desiderare – desistir de olhar (os astros), deixar de ver (os astros).

Essa era a linguagem e a visão dos adivinhos, na antiga Roma, que tentavam interpretar o futuro pelos astros. Assim, na teologia astral, sidera é usado para indicar a influência dos astros no destino humano, ou seja, na astrologia nosso destino está inscrito e escrito nas estrelas, e considerare é consultar os astros para neles encontrar o sentido e o guia de nossas vidas. Ao contrário, desiderare é desistir dessa referência, é abandonar o alto ou ser por ele abandonado. É quando alguém desanima de consultar os astros porque nada do que esperava aconteceu.

A modernidade desatou os laços que prendiam o desejo à astrologia. Assim, quando o homem deixa de olhar os astros em busca de orientação para sua vida, desiderare passa a ser a decisão de tomarmos o destino de nossas vidas em nossas próprias mãos. Desiderare passa a se referir ao desejo humano como uma busca que depende do próprio homem e não mais determinada pelos astros.

Desejar e identificar nossos desejos são os primeiros passos para nos constituir como sujeitos e sentirmos que somos alguém. Desejar é se movimentar em busca do que se quer ser. Sabemos, porém, que não é possível ser tudo o que gostaríamos. E, portanto, desejar é, também, ter a certeza da incompletude, é reconhecer que não seremos tudo o que desejamos. Daí, adeus tarô, búzios,

I Ching, cartomante, ilusões que “supostamente” prometem realizar tudo o que queremos.

O desejo é essa ambiguidade, essa oscilação de significados entre decisão e carência. É também como ausência, carência, privação e falta que o desejo é considerado na psicanálise. O homem, desde sempre, deseja restabelecer uma suposta situação primeira de satisfação.

A mola da busca é o desejo, que pode ser consciente ou inconsciente. Desejo de realizar um sonho, como o sonho profissional de ser médico, artista etc.; de lidar com algum atributo psicológico como, por exemplo, ser menos agressivo. Quem garante, porém, que tudo sairá conforme planejamos? Por isso toda busca é uma procura que não sabemos muito bem o que vamos encontrar, mas, mesmo assim, desejamos buscar. Portanto, somos perseguidores de buscas pelos caminhos do mistério, do estranhamento que podem ora nos satisfazer e ora nos decepcionar. O mais importante é não parar de buscar.