Brincar é preciso

Durante muito tempo a criança foi tratada como um adulto em miniatura e não era percebida como alguém que tem capacidades e interesses diferentes do adulto. Mas, hoje sabemos que a criança tem suas próprias características.

Muitos pais consideram que a criança brinca somente porque gosta ou para passar o tempo porque não tem outra coisa para fazer; que o jovem brinca, tocando em banda, fazendo teatro, jogando futebol etc. porque é preguiçoso e quer levar a vida na flauta. Brincar, porém, não é um passatempo nem uma evasão, pelo contrário, é uma necessidade, é fundamental para o desenvolvimento psíquico da criança. Portanto, é seu direito, e até mesmo do jovem e do adulto.

Nem toda criança pode brincar livremente e isso compromete o seu desenvolvimento, principalmente a criatividade. Há tantas crianças trabalhando, outras jogadas na rua e ainda outras entupidas de atividades de forma que não sobra tempo para brincar. O brincar, além de divertido, não deve ser um privilégio, ele é uma necessidade e a criança que não brinca não pode ser criança de verdade. Pela brincadeira podemos examinar a vida psíquica da criança.

A cabeça da criança não é tão simples como pode parecer. Ao brincar a criança consegue lidar com muitas coisas complicadas que passam pela sua mente, tantos sentimentos fortes, sonhos e pesadelos que a deixam confusa, pois ela ainda não os compreende. E aquilo que não compreendemos provoca alguma reação, de medo, de raiva, de aversão etc. É por meio da brincadeira que a criança consegue expressar certos sentimentos e angústias que ela não conseguiria fazer de outra forma.

Além disso, a brincadeira é uma das formas mais eficazes de se estabelecer uma relação com a criança. Repare como a criança aprende com mais facilidade quando a professora ensina a matéria de forma lúdica, ou seja, por meio de brincadeiras, de músicas, de jogos etc.; como o jovem se sente mais próximo dos pais quando podem conversar de forma leve, no dia a dia, sobre futebol, sobre moda ou podem até mesmo “jogar conversa fora”. Na diversão, o entrosamento é mais espontâneo.

Pensa-se, geralmente, que brincar é uma atividade somente da criança, e que o adulto deve levar a vida a sério, e que gente séria não brinca. Porém, o contrário do brincar não é a seriedade, mas a realidade, afirma Freud. Por isso dizemos que o lúdico – palavra que significa literalmente “em jogo”, ilusão, derivada de inlusio, illudere ou inludere – é tão sério. O brincar é algo sério não só para a criança como também para o adulto, pois diz respeito aos momentos de ilusão e de devaneios, isto é, ao tempo em que o adulto sonha acordado e imagina projetos para sua vida. O antropólogo Johan Huizinga afirma que “o homem joga somente quando é homem no pleno sentido da palavra, e somente é homem pleno quando joga”. Portanto, levar a vida a sério, isto é, ter responsabilidade consigo próprio e com os outros não implica ser sisudo, zangado, emburrado, fechado, rígido ou mal humorado.

No passado, nos séculos XVI e XVII, o adulto não trabalhava tanto como na atualidade, o que lhe possibilitava divertir-se e dedicar-se à brincadeira na companhia das crianças, segundo Philippe Ariès. No mundo de hoje, ao contrário, o envolvimento do adulto com jogos e/ou com o lazer tendem a se assemelhar às atividades de trabalho, associadas às ideias de rendimento e produção.

Os adultos também podem brincar ao usar o senso de humor, ao cantar, ao dançar, ao contar piadas, ao escrever, ao ler etc. Os adultos que assim se divertem trazem dentro de si a criança que já foram no passado. O senso de humor torna a vida mais prazerosa e ameniza as exigências e as cobranças. O brincar é o tempero da vida e pertence a todas as idades. Portanto, brinque e torne sua vida saborosa e apetitosa.

Criar filhos dá trabalho

Em face da impossibilidade de evitar sofrimentos com que pais e filhos se defrontam no curso de suas vidas em comum, torna-se necessário contemplá-los. Cuidar de uma criança, principalmente pequena, nem sempre é uma tarefa impregnada de alegria, pois implica situações verdadeiramente penosas.

A maternidade é uma função complexa e exige disponibilidade, dedicação e amorosidade. E dá trabalho. Constitui um alívio para as mães tomar conhecimento de que outras, como elas, em muitos momentos se sentem exaustas frente ao trabalho requerido com os cuidados de um bebê. A idealização do amor materno, fruto do amor romântico, gera culpa e um sentimento de insuficiência desastroso e irreparável.

A experiência da parentalidade coloca em confronto a vivência da dependência total e absoluta, no sentido de um outro, o recém-nascido, que depende física e psiquicamente dos pais, e em particular da mãe. Diante da chegada do bebê, o desconhecido, a mãe ainda não sabe se será capaz de ocupar-se dele, pois ainda não adquiriu sua nova identidade de mãe. Ao se dedicar aos cuidados do bebê, ela necessita se identificar com ele para interpretar suas necessidades. A esse período de transição de identidade dos pais soma-se um esmagador sentimento de responsabilidade sobre o filho.

Assim, podemos dizer que os “jovens pais” – pouco importa a idade real na medida em que, como pais, eles têm a idade de seu bebê – vivem momentos de crise em que novas configurações psíquicas podem ser sentidas como uma violência extrema.

Uma das funções da parentalidade, especialmente do pai, é articular o desejo do filho com a Lei. Todavia, nem sempre, esse ofício dos progenitores é bem sucedido, e muitas vezes o filho necessita da ajuda de um psicanalista, profissional que também se ocupa do desejo de que o outro se alimenta.

Zygmunt Bauman, pensador contemporâneo, enfatiza a importância de a função paterna se desenvolver descolada da forte pressão sobre o futuro do filho, sobre quem ele será, tão característica do contexto social e cultural da atualidade. Ele propõe a imagem do peregrino que, em sua peregrinação, implica-se mais com o transcorrer do trajeto do que com o ponto de chegada. Ou seja, a paternidade como possibilidade de um tempo presente para escutar o filho, estar com ele e daí conhecê-lo e com ele construir um vínculo afetivo.

Muitas mães inquietam-se com os reflexos da ausência do pai, quando é o caso, sobre o filho. Não só a menina, como também o menino têm a necessidade da presença masculina e feminina, ou seja, da maternidade e da paternidade, para se desenvolver psiquicamente.

As reações dos filhos de mãe solteira dependem do modo como ela fala com a criança sobre seu genitor, do modo como ela o amou e do modo como aceita, em suas experiências afetivas, a presença dos homens a seu redor e a relação emocional do filho com eles. A mãe existe em princípio biologicamente e mais tarde por seus atos e palavras. O pai ausente adquire existência, simbolicamente, por meio das palavras da mãe e de quem quer que o tenha, em vida, conhecido, amado, e que possa nomeá-lo e narrá-lo para o filho.

A mulher abandonada e mãe pode, caso esteja inconsolável, voltar-se contra todos os homens ou contra a vida em si mesma, provocando muitas lacunas não só na própria psique como também na dos filhos. Em certa ocasião, uma mãe perguntou-me: “Mas, uma mãe não deve substituir o pai quando esse não é presente?”. E conversamos que não é que ela não deva, mas, simplesmente, que ela não pode fazê-lo.