Você tem medo de quê?

“De que se tem medo? Da morte, foi sempre a resposta. E de todos os males que possam simbolizá-la, antecipá-la, recordá-la aos mortais”, reflete a filósofa Marilena Chauí. Assim, tememos o grito e o silêncio, o vazio e o infinito, o efêmero e o definitivo, a culpa e o castigo, o amor e o ódio, o perigo e a covardia, o incesto e a pureza, o esquecimento e a lembrança, a doença e a saúde, os medrosos e os temerários, os ditadores e os democratas. Tememos o medo. E, morreremos de medo.

E, ainda, tememos as infinitas perdas afetivas que podem nos assombrar como as perdas precoces, particularmente do amor materno e de pessoas significativas, da garantia de segurança e de confiança, e das renúncias que teremos que processar, a duras penas.

Desde que nascemos sentimos medo, ou seja, o medo nasce junto com o ser humano, com a nossa condição de desamparo. E ele é também nossa proteção na medida em que antecipa certos riscos. O medo é um dos sentimentos que permitiram a sobrevivência e multiplicação da nossa espécie. Graças a ele, nossos ancestrais escaparam dos ataques de animais selvagens e das ameaças da natureza. O reconhecimento de nossos sentimentos de medo é um instrumento de alerta valioso que nos prepara para evitar os perigos, pois é “(…) o medo, nosso pai e nosso companheiro”, segundo o poeta Drummond.

E, ao lado do medo anda a coragem, como bem nos lembra Guimarães Rosa: “Carece de ter coragem” (…) “que é que a gente sente, quando se tem medo?”. A coragem é a tentativa de superarmos a angústia do viver. É preciso coragem para viver, para ser. Coragem de dizer aquilo que se pensa mesmo que seja desconfortável; coragem de ser um sujeito e não uma massa amorfa; coragem de se exprimir mesmo quando teríamos que nos calar porque é mais cômodo. Tudo isso está ligado à esperança de que algo produtivo aconteça. Não é otimismo ingênuo, mas construção e reunião de vários fragmentos da existência que dão um sentido para nossa vida.

Desde a antiguidade, os epicuristas, filósofos que pregavam a busca dos prazeres moderados, já se dedicavam a nos libertar dos medos e ensinavam as pessoas de que não há nada a temer da morte e dos deuses, e que a dor é suportável.

Cada época pode apresentar medos mais característicos. “Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma nova qualidade de medo!”, também nos ensina Guimarães Rosa. A contemporaneidade não inventou o medo, mas existem medos específicos dela. Se, vivemos hoje em uma sociedade cada vez mais obcecada não só pela segurança, pelo controle como também pela ideia de sucesso, presenciamos a exacerbação de um tipo de medo, que é o de fracassar profissionalmente, pois o nível de exigência está cada vez mais alto.

Todos nós já tivemos fracassos em alguma época da vida. De fato, quanto mais enfrentamos os riscos de uma nova experiência, maior será a probabilidade de fracassarmos, mas, ao mesmo tempo, de atingir o que queremos. Não é fácil acertar quando experimentamos pela primeira vez. Mas, se tivermos medo de fracassar, teremos medo de correr riscos e ficaremos estagnados. Samuel Beckett, dramaturgo irlandês, encoraja-nos com o revigorante ar do fracasso. Tentar de novo, fracassar de novo, fracassar melhor.

O crescimento requer uma disponibilidade para correr o risco do fracasso, porém, fracasso não significa, necessariamente, derrota. Acreditar que por ter falhado em algumas tentativas “somos um fracasso” representa uma atitude de derrota. Mesmo quando temos muita experiência, também “comemos bola”!

O homem é aquele ser que sabe que morre, embora não queira saber. E também morre de medo de morrer. A presença da morte pode nos unir por laços que vão além dos institucionalizados. No entanto, nem sempre essa presença nos articula e, em geral, tratamos de esquecê-la, como se não passasse de um acidente inesperado. Como diria o filósofo Blaise Pascal: “Os homens, não tendo podido curar a morte, a miséria, a ignorância, resolveram, para se tornarem felizes, não pensar nisso”.

O processo psicanalítico está ligado às realizações criativas que envolvem, sobretudo, o trabalho de luto, a dor da renúncia a certos desejos de que o sujeito resiste em abrir mão. Por isso, a psicanálise desperta tanto medo. O tratamento psicanalítico assim como a vida é uma situação de crescimento e perda que exige coragem.

Da vida, restam-nos parcas, mas preciosas certezas: “a certeza de que estamos sempre começando… a certeza de que precisamos continuar… a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar… Portanto, devemos fazer da interrupção um caminho novo… da queda, um passo de dança… do medo, uma escada… do sonho, uma ponte… da procura, um encontro…”, sugeriria nosso poeta Fernando Pessoa.

Descanse, relaxe, sonhe… Sem culpa!

A experiência de convivência no além-mar é uma inquietação antiga na história da humanidade. A preciosa frase “Navegar é preciso; viver não é preciso…”, do latim “Navigare necesse; vivere non est necesse…” e de autoria de Pompeu, general romano (106-48 a.C.), referia-se ao alerta dado a marinheiros amedrontados que resistiam a viajar em alto-mar.

Mais recentemente, o poeta Fernando Pessoa lançou mão dessa máxima para nomear a sua vida de criação poética, o seu universo onírico. Para ele, a vida é uma constante invenção, é a transformação do nosso cotidiano não em obrigação, mas em criação sonhante permanente. É por meio da incerteza das águas e do desconhecimento das navegações que Pessoa aponta a invenção da vida.

A adoração pelo mar e pela natureza também levou nosso baiano Dorival Caymmi, cantador e contador da vida dos pescadores, a considerar a nau da vida humana uma travessia sem domínio, sem soberba. Viver é navegar no inesperado que nos bate à porta e nos traz o malogro ou a graça, em nós provocando sentimentos de dor ou prazer. Ah, como nossos baianos entendem de prazer! São nossos poetas! Navegar pelos sonhos, fantasias e devaneios pode despertar tanto prazer quanto o toque da pessoa amada.

Atualmente, o consumo está na ordem do dia. Desde a hora que acordamos até a hora de dormir estamos consumindo. O consumo mobiliza nossos sentimentos de prazer, satisfação e frustração. Porém, o consumo excessivo pode ser ideal para a economia, mas é um sinal de alerta para a nossa economia emocional. É uma tentativa fracassada de aplacar sentimentos de falta.

Assim, o prazer tem sido confundido com consumo desenfreado, perfeição de beleza e eficácia profissional, algo que nos ilude e nos escraviza. É a vida sob controle! A ditadura do ideal narcísico de completude joga-nos no imperativo categórico: “Goze!”. E, cada vez mais, somos arrastados para os já conhecidos estados emocionais de vazio, pânico, stress, depressão e insônia.

A compulsão ao consumo ou ao trabalho é um vício como o alcoolismo. O tempo frenético do check list, dos shoppings centers, das academias de ginástica, da high techonology impede que o indivíduo pare para pensar, imaginar e sonhar. Coube a Freud a descoberta de que o sonho é o guardião do sono. Na ausência de um aparelho construtor de sonhos, de narrativas sobre a própria existência e de um patrimônio onírico, o ser humano sente-se em permanente tensão e impedido de repousar. Tão importante quanto produzir, bater metas e realizar objetivos é parar tudo e curtir o ócio. Sim, é dele que vêm os devaneios e nasce a força de vontade para seguir em frente.

A trilogia Viagra, Prozac e Xenical promete potência sexual, felicidade e corpo escultural. Busca de precisão sem garantia. E tudo isso é fabricado em nome da liberdade, sem que as pessoas percebam a sua face negra de servidão voluntária; morte do desejo na medida em que não somos mais sujeitos, mas submetidos a uma ordem social massificadora. A uniformização e a catalogação das faces, cirurgicamente plastificadas em série, roubam-nos nossa marca singular. Beleza-padrão, ausência de sedução, perda do charme e da graça.

Nos dias atuais, a vida de relações afetivas profundas tem sido descartada como fonte de prazer. O consumo exagerado não é só de sexo, roupa, comida, bebida, carro, mas também de gente. O consumo de pessoas refere-se à troca constante de parceiros como se fosse uma mercadoria. Faz-se coleção de gente. Assim que se obtém a mercadoria, ela é esquecida, descartada após ter sido sugada em tudo o que podia, e parte-se em busca de outra. Ou, como dizem os jovens: “Já deu no que tinha que dar” ou “A fila anda…”. O consumidor de gente não é capaz de se ligar fortemente com o outro, pois está sempre se iludindo que encontrará a parceira perfeita e assim, está sempre insatisfeito. Além disso, suas experiências não deixam marcas e, portanto, não criam uma memória.

Na impossibilidade de se construir memórias sobre as experiências afetivas, ficamos destituídos de alma, de história. Na dança da vida o prazer inventivo e incerto se faz, no mínimo, a dois e inclui o sonhar compartilhado.

Ora, como o poeta Pessoa e o cancioneiro Caymmi, Freud nos mostra que não somos senhores em nossa própria casa. Nossos sonhos tomam rumos que não controlamos. Ainda bem, senão a vida não teria graça! Na errante travessia da vida partilhada, podemos nos deparar com surpresas e desfrutar de sonhos e prazeres genuínos.