Da amizade

Da amizade

A natureza criou os homens para viver em grupo, quer na família, quer na sociedade, e os laços entre as pessoas se estreitam à medida que nos aproximamos do outro, por meio da troca de ideias e, principalmente, de afetos. Uma das grandes teses antropológicas, de Lévi-Strauss, é que onde houver o humano haverá o social.

Amizade, em grego, diz-se phylia – que quer dizer “amor fraterno” –, étimo que abrange a relação do homem com o cosmos, a physis, a cidade, a relação consigo mesmo, com o outro e com os deuses. A phylia já se encontra na Ilíada de Homero com o valor de carus, dileto amigo. A amizade diz respeito ao “prazer de viver em companhia”.

Aristóteles afirmava a necessidade humana de ter amigos como fonte de relações afetivas. Para ele, a mais bela amizade seria a de duas pessoas que se unem para, no diálogo, encontrarem a verdade. Portanto, a amizade é um modo de se relacionar com o outro que envolve fundamentalmente a troca. E seu desenvolvimento é trabalho árduo e progressivo: é preciso haver o desejo de busca de contato com o outro, de conhecer o outro e, para conhecê-lo, precisamos nos aproximar dele.

A amizade é aquela relação tecida no bem-querer e no bem-fazer em que os amigos suprem reciprocamente as limitações uns dos outros. É um vínculo de identificação e diferenciação, isto é, nela se fazem presentes não somente as afinidades, mas, também, as diferenças. Grande parte da vitalidade de uma amizade reside no respeito pelas diferenças, não apenas no desfrute das semelhanças, embora, numa visão “idealizada”, eu possa esperar que meu amigo seja meu espelho – alguém que sente, pensa e age exatamente como eu.

A amizade está intimamente ligada à ética. Encontrada pela primeira vez em Homero, a palavra ethos significava “morada”. Não sendo arquitetura ou técnica de construção, ethos é habitat, “toca”; ethos não é, porém, unicamente o local de habitação, a moradia, mas o fato e a maneira de habitar um lugar.

Algo semelhante se passa com as palavras asti e pólis (ambas com o significado de “cidade”). Se a primeira – asti – se refere à cidade em seus aspectos materiais, ruas, monumentos e edificações, a pólis é sua forma de vida, seu espírito, seu caráter, seu ethos. O campo exemplar do conhecimento de si e do outro foi a pólis grega clássica que inventou, a um só tempo, a filosofia, a tragédia, a democracia; nela, os indivíduos se reuniam pelo laço afetivo da amizade, por uma aproximação espontânea e consciente.

O oposto da amizade é a tirania. O tirano é infeliz porque não tem amigos nem colaborador fiel e vive no medo, tanto pelo que inflige a seus súditos, quanto pelo sentimento de desconfiança acerca daqueles que o cercam. O tirano é obrigado a viezar, dissimular suas verdadeiras ações e intenções para enganar os outros; aqueles que o cercam devem, por sua vez, adulá-lo, simular lealdade, conspirar contra os demais para conseguir os favores do tirano. Quando se reúnem, é um complô e não companhia; eles não se entretêm, eles se entre-temem. Não são amigos; são cúmplices.

Como lembra-nos a filósofa Olgária Matos, podemos dizer que se pela política nós nos humanizamos, pela amizade nós nos divinizamos.