Adolescência: desafio para pais e filhos

A adolescência é uma fase, em geral, marcada por críticas e incompreensão, não só por parte da família como também da sociedade, a ponto de ser chamada, na atualidade, de “aborrescência” pelos adultos.

Desde antes de Cristo, os conflitos da adolescência já eram descritos pelos filósofos gregos. Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) dizia que os jovens se rebelam contra a autoridade, não respeitam os mais velhos, contradizem seus pais e tiranizam seus mestres. Aristóteles (383 a.C. – 322 a.C.) afirmava que os jovens amam e odeiam com excesso, ou seja, agem com paixão.

Nesse período da vida ocorrem muitas mudanças físicas e emocionais, como perdas relativas à infância, desconcerto em face do surgimento de um novo corpo, responsabilidades inerentes ao horizonte da vida adulta – escolha profissional e amorosa –, com as quais o adolescente ainda não sabe lidar, e por isso é tomado pela angústia.

Essas transformações obrigam a mente a criar novas formas de funcionamento para dar conta do desconhecido e da complexidade emocional que isso acarreta. É uma fase de fronteira, de transição entre a criança e o adulto em que o adolescente se sente perdido e a interrogação sobre sua identidade se intensifica e o desorganiza.

A adolescência é o tempo de distanciamento das figuras dos pais. Isso se dá por meio de múltiplas experiências a respeito não só da própria vida – que incluem a intensificação da busca em estabelecer projetos e ações para alcançá-los e a consciência de que cada escolha gera consequências­­ –, como também da vida em comum, como a percepção de que direitos e deveres caminham juntos. Assim, nesse período se acentua o conflito entre dependência e independência, e a entrada no mundo adulto é um misto de desejo e temor, o que caracterizará a autonomia como uma longa e árdua conquista.

As infinitas experiências, por meio de tentativas e erros, exigem muito suporte da estrutura familiar no sentido de manutenção da autoridade e de provisão dos meios para o acompanhamento e a contenção das novas descobertas feitas pelos jovens.

As explorações transitórias, geralmente acompanhadas de excessos e perigos, deixam a família em estado de turbulência. O adolescente se sente onipotente e se julga com o poder de desafiar até a morte, o que para eles é extremamente excitante.

É nessa etapa que os filhos se dão conta de que os pais não podem e não sabem tudo, de que eles também têm necessidades e sofrem conflitos e angústias. Surge o luto dos pais da infância considerados os grandes heróis, que passam a ser vistos como seres humanos falíveis, suscetíveis a erros, fracassos e a sentimentos que evidenciam não serem mais invencíveis.

O adolescente, na medida em que suas certezas estão sendo viradas pelo avesso, provoca muitos questionamentos e contestações que demandam reflexão por parte dos pais. O conflito de gerações se estabelece e os pais são arrastados para uma revisão de ideias, pensamentos, crenças e valores que nem sempre é bem-vinda porque rompe com o suposto “estado de equilíbrio” que eles supunham viver, razão pela qual se recusam a enfrentar esse período dos filhos. Outras vezes, os pais sentem-se tão fragilizados para enfrentar tais questionamentos que são confundidos com a perda de autoridade perante os filhos. Nesses momentos, uma crise generalizada – dos filhos e dos pais – instala-se no seio da família.

O termo “crise”, oriundo do latim, tem sentido semelhante ao da palavra “vento” que indica um estágio de alternância, uma situação de mudança. Portanto, é importante ressaltar que os conflitos e a crise entre os filhos adolescentes e os pais são produtivos, pois é por meio deles que o jovem amadurece, adquire subsídios para avaliar criticamente suas convicções e legitimá-las, para então utilizá-las em sua vida adulta.

No processo de aquisição de autonomia e de formação da identidade adulta, o contraponto entre a visão do adulto e a do jovem garante a segurança da transição. Desse modo, a ação adolescente é necessária para a experiência de autonomia e originalidade. É ela que leva o jovem à busca de um sentido novo e original para si mesmo, e o torna responsável por sua própria vida.

Trata-se, portanto, da criação de uma identidade que desembocará num pacto com o social, que desbancará a família de origem como referência fundamental. Enfim, é função da adolescência alavancar o salto para o homem maduro. A crise pode ser benéfica se enfrentada, pensada e superada, o que promoverá o crescimento e a transformação de todos os membros da família.

Longe de “aborrecer”, o adolescente instiga a reflexão e a mudança!

 


Jassanan A. D. Pastore, psicanalista.

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