Os benefícios da solidão

O sentimento de solidão acomete o ser humano desde a mais tenra idade e se prolonga pela vida adulta.

À primeira vista, falar dos benefícios da solidão pode soar estranho e não combinar com o fato de que as pessoas são seres fundamentalmente solitários que precisam de conexões afetivas significativas com os outros para se sentirem vivas.

A constituição da subjetividade, portanto, se dá na nossa relação com o outro. Mas, não podemos esquecer que a convivência com a nossa própria solidão é uma marca de maturidade emocional e de crescimento interior, e por isso tem sua positividade.

Porém, não estamos nos remetendo àquela primeira ideia de solidão que pode vir à mente associada ao isolamento, à recusa de convívio com o outro, fonte de estresse físico e mental, por temer atravessar a porta que conduz para a rua, onde as coisas não são tão fáceis, e enfrentar as frustrações, as decepções. Essa pessoa prefere retirar sua libido, seu interesse pelas pessoas e pelo mundo, ou seja, prefere se afastar do mundo exterior e abandonar sua relação erótica com as pessoas e as coisas, pois elas “dão trabalho”. Para ela, o contato com o mundo é muito ameaçador porque destinado somente a desencontros e incompreensões, sem perceber que também oferece aprendizados e prazeres.

Sabemos que uma coisa é certa: gente precisa de gente. Daí a importância da capacidade de nos vincular e nos relacionar com as pessoas, mesmo que não encontremos nossa “cara metade”. Podemos observar que muitas pessoas moram sozinhas, mas não se isolam, ou seja, elas mantêm contato consigo mesmas e com uma grande rede de amigos e parentes.

Vamos, agora, tentar compreender as palavras do filósofo Emmanuel Lévinas ao dizer que “a solidão não é apenas um desespero e um abandono, ela é, também, uma virilidade, uma fertilidade e uma soberania”. Essas palavras expressam o estado que leva o sujeito a olhar para si mesmo, em sua condição de estranho, ao invés de olhar somente para os outros.

No entanto, observamos que as pessoas não suportam se olhar no espelho. Na agitação das metrópoles encontramos cada vez mais gente que se sente só. Na tentativa de evitar que a solidão seja notada, muitas pessoas correm de um lado para o outro sem parar; em casa deixam a televisão ou o rádio ligado durante o dia inteiro, ou permanecem horas a fio navegando na internet. Ou, se entregam a qualquer outra atividade que dissimule o silêncio.

Acostumadas ao ruído do mundo, que embaralha os sentimentos e as percepções, essas pessoas têm medo de se silenciarem, de estarem consigo mesmas e se depararem com seu próprio rosto. Pois, é nesse momento que os fantasmas aparecem. Ou, como diria Guimarães Rosa, que os demônios nos assustam. Mas, como não toleram pensar que possuem defeitos, cometem erros, enganos; como não aceitam que é impossível gostar de si próprias, e do outro, por inteiro, preferem fugir desse encontro íntimo e, então, buscam qualquer maneira de se “distrair”.

Contudo, são nos momentos de silêncio que temos a oportunidade de nos beneficiarmos de um contato com o nosso manancial interior. Quando nos desligamos do mundo por algumas horas podemos realizar uma peregrinação em direção ao íntimo de nós mesmos, o que, no entanto, perturba aqueles que não costumam praticá-la.

A solidão gera o silêncio que, por sua vez, gera o vazio na mente. Porém, é preciso não confundir silêncio com isolamento. A experiência de solidão pode ser criativa na medida em que o vazio é o terreno aberto para o surgimento de novas reflexões, é a pista de decolagem para novos rumos, para mudanças. Sem encontrar esse espaço, a pessoa não cria condições para o auto conhecimento e, portanto, não consegue “cuidar de si”.

Viver no meio do barulho não significa que estejamos nos sentindo acompanhados por alguém. É comum sentirmos solidão a dois, no meio de uma multidão, numa festa com os amigos, no trabalho e até mesmo dentro do próprio lar com a família. Nesses momentos, a solidão é um estado interior que remete ao sentimento de que algo ou alguém está faltando, quer estejamos em companhia de outro(s), quer estejamos a sós. Muitas vezes, ao nos sentirmos sozinhos no mundo, comemos demais, fumamos demais, bebemos demais, exigimos demais dos outros, etc. com o intuito de nos preenchermos. Dessa forma, o sentimento de solidão é estruturante para a constituição do sujeito, porque sentir a dor de nossa solidão nos faz tomar consciência de que existimos como seres singulares em relação aos outros, que os outros são diferentes de nós e que não podem nos preencher por completo.

O poeta Rainer Maria Rilke percebeu que “uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém, durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só”.
Habitualmente solitários em seu ofício e convivendo apenas com seus personagens imaginários, os escritores produzem seus romances, suas novelas, seus contos, suas crônicas, suas poesias. O processo criativo exige esse recuo em que é preciso abraçar a solidão. As obras de arte, as composições musicais são igualmente criadas no momento em que o sujeito se permite estar em sua própria companhia. “Quem não sabe povoar sua solidão, também não sabe estar só no meio da ocupada multidão”, diz-nos o poeta francês Charles Baudelaire.

Muitas vezes, a solidão é acompanhada de tristeza, principalmente nas situações que envolvem a perda de um ente querido, mas ambos os sentimentos estão longe de ser considerados como deformidade ou defeito moral, na medida em que são estados que nos permitem saber sobre as dores do viver.

Assim, a experiência de solidão se apresenta como uma possibilidade de emergência da singularidade humana e, diferentemente do isolamento mortífero, ela é potência criativa. Uma pessoa, para ser capaz de se sentir bem consigo mesma, precisa ser uma companheira de si própria.

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