Criar filhos dá trabalho

Em face da impossibilidade de evitar sofrimentos com que pais e filhos se defrontam no curso de suas vidas em comum, torna-se necessário contemplá-los. Cuidar de uma criança, principalmente pequena, nem sempre é uma tarefa impregnada de alegria, pois implica situações verdadeiramente penosas.

A maternidade é uma função complexa e exige disponibilidade, dedicação e amorosidade. E dá trabalho. Constitui um alívio para as mães tomar conhecimento de que outras, como elas, em muitos momentos se sentem exaustas frente ao trabalho requerido com os cuidados de um bebê. A idealização do amor materno, fruto do amor romântico, gera culpa e um sentimento de insuficiência desastroso e irreparável.

A experiência da parentalidade coloca em confronto a vivência da dependência total e absoluta, no sentido de um outro, o recém-nascido, que depende física e psiquicamente dos pais, e em particular da mãe. Diante da chegada do bebê, o desconhecido, a mãe ainda não sabe se será capaz de ocupar-se dele, pois ainda não adquiriu sua nova identidade de mãe. Ao se dedicar aos cuidados do bebê, ela necessita se identificar com ele para interpretar suas necessidades. A esse período de transição de identidade dos pais soma-se um esmagador sentimento de responsabilidade sobre o filho.

Assim, podemos dizer que os “jovens pais” – pouco importa a idade real na medida em que, como pais, eles têm a idade de seu bebê – vivem momentos de crise em que novas configurações psíquicas podem ser sentidas como uma violência extrema.

Uma das funções da parentalidade, especialmente do pai, é articular o desejo do filho com a Lei. Todavia, nem sempre, esse ofício dos progenitores é bem sucedido, e muitas vezes o filho necessita da ajuda de um psicanalista, profissional que também se ocupa do desejo de que o outro se alimenta.

Zygmunt Bauman, pensador contemporâneo, enfatiza a importância de a função paterna se desenvolver descolada da forte pressão sobre o futuro do filho, sobre quem ele será, tão característica do contexto social e cultural da atualidade. Ele propõe a imagem do peregrino que, em sua peregrinação, implica-se mais com o transcorrer do trajeto do que com o ponto de chegada. Ou seja, a paternidade como possibilidade de um tempo presente para escutar o filho, estar com ele e daí conhecê-lo e com ele construir um vínculo afetivo.

Muitas mães inquietam-se com os reflexos da ausência do pai, quando é o caso, sobre o filho. Não só a menina, como também o menino têm a necessidade da presença masculina e feminina, ou seja, da maternidade e da paternidade, para se desenvolver psiquicamente.

As reações dos filhos de mãe solteira dependem do modo como ela fala com a criança sobre seu genitor, do modo como ela o amou e do modo como aceita, em suas experiências afetivas, a presença dos homens a seu redor e a relação emocional do filho com eles. A mãe existe em princípio biologicamente e mais tarde por seus atos e palavras. O pai ausente adquire existência, simbolicamente, por meio das palavras da mãe e de quem quer que o tenha, em vida, conhecido, amado, e que possa nomeá-lo e narrá-lo para o filho.

A mulher abandonada e mãe pode, caso esteja inconsolável, voltar-se contra todos os homens ou contra a vida em si mesma, provocando muitas lacunas não só na própria psique como também na dos filhos. Em certa ocasião, uma mãe perguntou-me: “Mas, uma mãe não deve substituir o pai quando esse não é presente?”. E conversamos que não é que ela não deva, mas, simplesmente, que ela não pode fazê-lo.


Adolescência: desafio para pais e filhos

A adolescência é uma fase, em geral, marcada por críticas e incompreensão, não só por parte da família como também da sociedade, a ponto de ser chamada, na atualidade, de “aborrescência” pelos adultos.

Desde antes de Cristo, os conflitos da adolescência já eram descritos pelos filósofos gregos. Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) dizia que os jovens se rebelam contra a autoridade, não respeitam os mais velhos, contradizem seus pais e tiranizam seus mestres. Aristóteles (383 a.C. – 322 a.C.) afirmava que os jovens amam e odeiam com excesso, ou seja, agem com paixão.

Nesse período da vida ocorrem muitas mudanças físicas e emocionais, como perdas relativas à infância, desconcerto em face do surgimento de um novo corpo, responsabilidades inerentes ao horizonte da vida adulta – escolha profissional e amorosa –, com as quais o adolescente ainda não sabe lidar, e por isso é tomado pela angústia.

Essas transformações obrigam a mente a criar novas formas de funcionamento para dar conta do desconhecido e da complexidade emocional que isso acarreta. É uma fase de fronteira, de transição entre a criança e o adulto em que o adolescente se sente perdido e a interrogação sobre sua identidade se intensifica e o desorganiza.

A adolescência é o tempo de distanciamento das figuras dos pais. Isso se dá por meio de múltiplas experiências a respeito não só da própria vida – que incluem a intensificação da busca em estabelecer projetos e ações para alcançá-los e a consciência de que cada escolha gera consequências­­ –, como também da vida em comum, como a percepção de que direitos e deveres caminham juntos. Assim, nesse período se acentua o conflito entre dependência e independência, e a entrada no mundo adulto é um misto de desejo e temor, o que caracterizará a autonomia como uma longa e árdua conquista.

As infinitas experiências, por meio de tentativas e erros, exigem muito suporte da estrutura familiar no sentido de manutenção da autoridade e de provisão dos meios para o acompanhamento e a contenção das novas descobertas feitas pelos jovens.

As explorações transitórias, geralmente acompanhadas de excessos e perigos, deixam a família em estado de turbulência. O adolescente se sente onipotente e se julga com o poder de desafiar até a morte, o que para eles é extremamente excitante.

É nessa etapa que os filhos se dão conta de que os pais não podem e não sabem tudo, de que eles também têm necessidades e sofrem conflitos e angústias. Surge o luto dos pais da infância considerados os grandes heróis, que passam a ser vistos como seres humanos falíveis, suscetíveis a erros, fracassos e a sentimentos que evidenciam não serem mais invencíveis.

O adolescente, na medida em que suas certezas estão sendo viradas pelo avesso, provoca muitos questionamentos e contestações que demandam reflexão por parte dos pais. O conflito de gerações se estabelece e os pais são arrastados para uma revisão de ideias, pensamentos, crenças e valores que nem sempre é bem-vinda porque rompe com o suposto “estado de equilíbrio” que eles supunham viver, razão pela qual se recusam a enfrentar esse período dos filhos. Outras vezes, os pais sentem-se tão fragilizados para enfrentar tais questionamentos que são confundidos com a perda de autoridade perante os filhos. Nesses momentos, uma crise generalizada – dos filhos e dos pais – instala-se no seio da família.

O termo “crise”, oriundo do latim, tem sentido semelhante ao da palavra “vento” que indica um estágio de alternância, uma situação de mudança. Portanto, é importante ressaltar que os conflitos e a crise entre os filhos adolescentes e os pais são produtivos, pois é por meio deles que o jovem amadurece, adquire subsídios para avaliar criticamente suas convicções e legitimá-las, para então utilizá-las em sua vida adulta.

No processo de aquisição de autonomia e de formação da identidade adulta, o contraponto entre a visão do adulto e a do jovem garante a segurança da transição. Desse modo, a ação adolescente é necessária para a experiência de autonomia e originalidade. É ela que leva o jovem à busca de um sentido novo e original para si mesmo, e o torna responsável por sua própria vida.

Trata-se, portanto, da criação de uma identidade que desembocará num pacto com o social, que desbancará a família de origem como referência fundamental. Enfim, é função da adolescência alavancar o salto para o homem maduro. A crise pode ser benéfica se enfrentada, pensada e superada, o que promoverá o crescimento e a transformação de todos os membros da família.

Longe de “aborrecer”, o adolescente instiga a reflexão e a mudança!

 


Jassanan A. D. Pastore, psicanalista.

Descanse, relaxe, sonhe… Sem culpa!

A experiência de convivência no além-mar é uma inquietação antiga na história da humanidade. A preciosa frase “Navegar é preciso; viver não é preciso…”, do latim “Navigare necesse; vivere non est necesse…” e de autoria de Pompeu, general romano (106-48 a.C.), referia-se ao alerta dado a marinheiros amedrontados que resistiam a viajar em alto-mar.

Mais recentemente, o poeta Fernando Pessoa lançou mão dessa máxima para nomear a sua vida de criação poética, o seu universo onírico. Para ele, a vida é uma constante invenção, é a transformação do nosso cotidiano não em obrigação, mas em criação sonhante permanente. É por meio da incerteza das águas e do desconhecimento das navegações que Pessoa aponta a invenção da vida.

A adoração pelo mar e pela natureza também levou nosso baiano Dorival Caymmi, cantador e contador da vida dos pescadores, a considerar a nau da vida humana uma travessia sem domínio, sem soberba. Viver é navegar no inesperado que nos bate à porta e nos traz o malogro ou a graça, em nós provocando sentimentos de dor ou prazer. Ah, como nossos baianos entendem de prazer! São nossos poetas! Navegar pelos sonhos, fantasias e devaneios pode despertar tanto prazer quanto o toque da pessoa amada.

Atualmente, o consumo está na ordem do dia. Desde a hora que acordamos até a hora de dormir estamos consumindo. O consumo mobiliza nossos sentimentos de prazer, satisfação e frustração. Porém, o consumo excessivo pode ser ideal para a economia, mas é um sinal de alerta para a nossa economia emocional. É uma tentativa fracassada de aplacar sentimentos de falta.

Assim, o prazer tem sido confundido com consumo desenfreado, perfeição de beleza e eficácia profissional, algo que nos ilude e nos escraviza. É a vida sob controle! A ditadura do ideal narcísico de completude joga-nos no imperativo categórico: “Goze!”. E, cada vez mais, somos arrastados para os já conhecidos estados emocionais de vazio, pânico, stress, depressão e insônia.

A compulsão ao consumo ou ao trabalho é um vício como o alcoolismo. O tempo frenético do check list, dos shoppings centers, das academias de ginástica, da high techonology impede que o indivíduo pare para pensar, imaginar e sonhar. Coube a Freud a descoberta de que o sonho é o guardião do sono. Na ausência de um aparelho construtor de sonhos, de narrativas sobre a própria existência e de um patrimônio onírico, o ser humano sente-se em permanente tensão e impedido de repousar. Tão importante quanto produzir, bater metas e realizar objetivos é parar tudo e curtir o ócio. Sim, é dele que vêm os devaneios e nasce a força de vontade para seguir em frente.

A trilogia Viagra, Prozac e Xenical promete potência sexual, felicidade e corpo escultural. Busca de precisão sem garantia. E tudo isso é fabricado em nome da liberdade, sem que as pessoas percebam a sua face negra de servidão voluntária; morte do desejo na medida em que não somos mais sujeitos, mas submetidos a uma ordem social massificadora. A uniformização e a catalogação das faces, cirurgicamente plastificadas em série, roubam-nos nossa marca singular. Beleza-padrão, ausência de sedução, perda do charme e da graça.

Nos dias atuais, a vida de relações afetivas profundas tem sido descartada como fonte de prazer. O consumo exagerado não é só de sexo, roupa, comida, bebida, carro, mas também de gente. O consumo de pessoas refere-se à troca constante de parceiros como se fosse uma mercadoria. Faz-se coleção de gente. Assim que se obtém a mercadoria, ela é esquecida, descartada após ter sido sugada em tudo o que podia, e parte-se em busca de outra. Ou, como dizem os jovens: “Já deu no que tinha que dar” ou “A fila anda…”. O consumidor de gente não é capaz de se ligar fortemente com o outro, pois está sempre se iludindo que encontrará a parceira perfeita e assim, está sempre insatisfeito. Além disso, suas experiências não deixam marcas e, portanto, não criam uma memória.

Na impossibilidade de se construir memórias sobre as experiências afetivas, ficamos destituídos de alma, de história. Na dança da vida o prazer inventivo e incerto se faz, no mínimo, a dois e inclui o sonhar compartilhado.

Ora, como o poeta Pessoa e o cancioneiro Caymmi, Freud nos mostra que não somos senhores em nossa própria casa. Nossos sonhos tomam rumos que não controlamos. Ainda bem, senão a vida não teria graça! Na errante travessia da vida partilhada, podemos nos deparar com surpresas e desfrutar de sonhos e prazeres genuínos.