Querer não é poder

Frustrar uma criança é impor-lhe limites, é dizer-lhe “não”, palavra que ninguém gosta de ouvir. A palavra “não” coloca um limite. Nós não podemos e nem devemos atender a todos os pedidos da criança porque os desejos têm uma medida muito maior do que a razão; nós queremos muito mais do que podemos. Mas, sabemos o quanto é difícil para muitos pais exercer a função de mostrar para a criança que querer não é poder.

Muito cedo na vida o bebê já escuta a palavra “não”, já que os pais querem protegê-lo de perigos dizendo “não pode”, “não pode mexer nisso”, “não pode comer aquilo”. Mas falar “não” para a criança pode deixar os pais, avós e professores confusos e perdidos, pois eles costumam ouvir dois pontos de vista diferentes: de um lado, ouvem que não devem falar “não” para a criança, porque a traumatizariam e inibiriam seu desenvolvimento; de outro lado, ouvem que falar “não” para a criança é necessário para prepará-la para a dura realidade da vida, para discipliná-la e ajudá-la a se organizar e a amadurecer.

Na realidade, ambas as situações são fundamentais. É preciso tanto falar “não” como também dizer “sim”. Se evitarmos dizer “não” podemos nos sentir explorados e abusados pelo outro, e o outro não adquire a noção das limitações de cada pessoa.

Além disso, a criança só adquire o conhecimento do significado do “sim” se ela vive a experiência da negativa. Isso se dá, por exemplo, quando muito cedo na vida o bebê quer mamar e a mãe demora um pouco para poder atendê-lo. O bebê, então, não só ouve o “não” como vive a experiência da ausência, tem a sensação do “não”. Daí a criança vai aprendendo que não pode ter tudo o que deseja e na hora que deseja. Junto com essa experiência vai surgindo também a noção de que ela deseja algo.

Com o passar do tempo, a criança começa a ouvir o “não” dirigido às suas condutas, como “não pode fazer xixi no chão”, “não pode bater no irmãozinho” etc. Embora desde cedo estejamos convivendo com as restrições, é muito difícil para as pessoas aceitar os limites. E muitas delas passam a vida inteira se rebelando contra eles e chegam a sonhar que podem eliminar todos os “nãos” da vida, para daí se tornarem livres. Mas, existem os limites em relação a nós mesmos: “não sei”, “não consigo”, “não tenho”, “não posso” etc. E, ainda, os limites das diversas pessoas com quem nos relacionamos: ele “não sabe”, ele “não está”, ele “não pode” etc. Além disso tudo, temos também os limites impostos pela lei e os da espécie humana. E, ainda mais, é preciso aguentar receber uma negativa, uma frustração, para daí ser capaz de dizê-la para o outro. Vejam o mar de limites com que nos defrontamos para viver. É desde pequeno que aceitamos, a duras penas, esses limites. É imprescindível que se aprenda a lidar com eles, porque não há possibilidade de evitá-los, pois viver junto exige limites.

Observamos, com muita frequência, que as crianças não suportam ouvir “não” e reagem, portanto, fazendo birra, esperneando, jogando-se no chão, enfim fazendo um carnaval. Em geral, para abafar o escândalo, os pais acabam por ceder, embora contrariados. E a criança vai criando a ideia não só de que sua agressividade tem muito poder, como também de que sendo agressiva ela pode conseguir tudo o que deseja. Então surge o medo daquilo de que ela é capaz com sua agressividade, pois uma coisa é ela imaginar algo e outra é acontecer de fato. Portanto, se possível, não deem muita importância para os acessos de fúria de seus filhos quando frustrados.

Muitos pais acham que é maldade um bebê ser submetido, tão precocemente, à experiência de frustração. Mas, ao contrário, ela é inevitável e fundamental para o desenvolvimento de qualquer pessoa. É a partir da frustração, da ausência daquilo que o bebê quer que ele desenvolverá suas capacidades, como tentar substituir aquilo que ele não está conseguindo por outra coisa, como imaginar a mãe, começar a pensar, aprender a berrar, reclamar, falar.

A criança pequena tem a ilusão de que é toda poderosa, de que é o centro do mundo, que tudo acontece por causa dela, que basta ela pensar em algo que logo acontece. Mas com o decorrer do tempo ela vai percebendo que as coisas não são bem assim e que ela não é tão poderosa, que não consegue tudo o que deseja e que não é dona do mundo e de ninguém. Enfim, ela vai percebendo seus próprios limites e os dos outros e que cada pessoa existe separada do outro e que os outros vivem independentemente dela.

Se, de um lado, o “não” é uma espécie de estraga prazer, de outro é uma proteção e proporciona um sentimento de segurança. Uma criança dificilmente teria um desenvolvimento emocional e intelectual sem ter sofrido a presença do “não”, pois ela não conseguiria aprender a pensar e a falar.