Errar é humano

O homem é um ser falível por natureza. O erro diz respeito a uma falha estrutural da constituição humana, fato que resistimos a aceitar porque queremos sempre acertar. Temos medo de correr riscos, pois eles implicam assumir a responsabilidade das consequências. Como não nascemos prontos e acabados, o jogo de tentativas e erros que experimentamos desde muito cedo na vida é a base para o conhecimento de si e do mundo. Errar faz parte do processo de amadurecimento. As experiências do cotidiano muito nos ensinam, independente da escolarização. Por exemplo, se a criança puser a mão no fogo do fogão, ela vai se queimar.

É importante enfatizar a nossa dificuldade em reconhecer que o erro, o fracasso e a insuficiência fazem parte do universo humano. E, se os adultos – pais, professores, etc. – não conseguem exprimir para as crianças e para os jovens seus próprios erros, enganos e limitações, eles aprenderão que não podem errar e que têm que ser perfeitos. Os adultos tentam a todo custo evitar que seus filhos errem, sofram, e enfrentem dificuldades, frustrações e desilusões. Porém, é por meio do exercício desses impasses que a criança e o jovem desenvolverão recursos para perseverar diante dos obstáculos, e criarão resistência para lidar com a adversidade. Caso contrário, se sentirão despreparados para os desafios da vida e hesitarão em ter o prazer de se lançarem em novas vivências e descobertas.

Há um grande mal-estar, hoje, sobre a existência do erro no ser humano devido à exigência de desempenho exemplar e eficácia nas ações. Assim, o erro é mal visto e considerado uma fraqueza, e a ordem do dia é ter sucesso! Ou melhor, mais importante do que o sucesso é passar uma imagem de sucesso. No mundo dos negócios, o profissional é mais valorizado por ser “ágil e garantir a produtividade” do que pelos valores que ele expressa.

O erro pode ser produtivo se soubermos aprender a partir dele. Sofremos como cães pelos enganos que cometemos: atos impensados, amores desfeitos, escolha profissional desprazerosa, só para citar alguns. Mas, aprendemos muito por meio das experiências de dor, ou seja, pelo sofrimento adquirimos conhecimento. Erramos e sofremos, mas, com reflexão, sorte e memória, aprendemos algo novo. Aprendemos a evitar cometer os mesmos erros. As vivências dolorosas nos tornam mais humanos e o fracasso mais flexíveis, além de nos darem a consciência de que não somos deus. Ao admitirmos um erro, poderemos procurar consertá-lo, mudando de caminho ou de procedimento. É a possibilidade de “mudança de direção”, a conhecida metanoia dos gregos antigos. Assim, o erro se torna criativo gerando transformações e novas condutas.

Porém, nem sempre conseguimos corrigir nossos erros e certos erros podem ser fatais, como por exemplo, uma determinada falha médica cirúrgica. Além disso, não é raro encontrarmos pessoas que não tiram nenhum ensinamento dos erros cometidos, e neles persistem.

Uma forma típica do mundo moderno é a pessoa tentar negar o erro e acreditar que pode ter controle de tudo. Daí, o que nos escapa é visto como um erro no sentido do descontrole, daquilo que foge ao controle, o que também é parte estrutural da espécie humana. Então, o homem moderno, se vê numa sinuca de bico: passamos a controlar sempre mais e melhor, por meio de altas tecnologias – câmeras de TV, catracas com cartões magnéticos, controle genético, domínio do tempo etc. – mas, na realidade, não temos garantia de nada! A busca de terrenos estáveis, de pontos de referência fixos é uma maneira de querermos controlar o incontrolável.

Em suma, não adianta estrebuchar porque errar é humano e vamos todos errar em nossas existências!


Você tem medo de quê?

“De que se tem medo? Da morte, foi sempre a resposta. E de todos os males que possam simbolizá-la, antecipá-la, recordá-la aos mortais”, reflete a filósofa Marilena Chauí. Assim, tememos o grito e o silêncio, o vazio e o infinito, o efêmero e o definitivo, a culpa e o castigo, o amor e o ódio, o perigo e a covardia, o incesto e a pureza, o esquecimento e a lembrança, a doença e a saúde, os medrosos e os temerários, os ditadores e os democratas. Tememos o medo. E, morreremos de medo.

E, ainda, tememos as infinitas perdas afetivas que podem nos assombrar como as perdas precoces, particularmente do amor materno e de pessoas significativas, da garantia de segurança e de confiança, e das renúncias que teremos que processar, a duras penas.

Desde que nascemos sentimos medo, ou seja, o medo nasce junto com o ser humano, com a nossa condição de desamparo. E ele é também nossa proteção na medida em que antecipa certos riscos. O medo é um dos sentimentos que permitiram a sobrevivência e multiplicação da nossa espécie. Graças a ele, nossos ancestrais escaparam dos ataques de animais selvagens e das ameaças da natureza. O reconhecimento de nossos sentimentos de medo é um instrumento de alerta valioso que nos prepara para evitar os perigos, pois é “(…) o medo, nosso pai e nosso companheiro”, segundo o poeta Drummond.

E, ao lado do medo anda a coragem, como bem nos lembra Guimarães Rosa: “Carece de ter coragem” (…) “que é que a gente sente, quando se tem medo?”. A coragem é a tentativa de superarmos a angústia do viver. É preciso coragem para viver, para ser. Coragem de dizer aquilo que se pensa mesmo que seja desconfortável; coragem de ser um sujeito e não uma massa amorfa; coragem de se exprimir mesmo quando teríamos que nos calar porque é mais cômodo. Tudo isso está ligado à esperança de que algo produtivo aconteça. Não é otimismo ingênuo, mas construção e reunião de vários fragmentos da existência que dão um sentido para nossa vida.

Desde a antiguidade, os epicuristas, filósofos que pregavam a busca dos prazeres moderados, já se dedicavam a nos libertar dos medos e ensinavam as pessoas de que não há nada a temer da morte e dos deuses, e que a dor é suportável.

Cada época pode apresentar medos mais característicos. “Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma nova qualidade de medo!”, também nos ensina Guimarães Rosa. A contemporaneidade não inventou o medo, mas existem medos específicos dela. Se, vivemos hoje em uma sociedade cada vez mais obcecada não só pela segurança, pelo controle como também pela ideia de sucesso, presenciamos a exacerbação de um tipo de medo, que é o de fracassar profissionalmente, pois o nível de exigência está cada vez mais alto.

Todos nós já tivemos fracassos em alguma época da vida. De fato, quanto mais enfrentamos os riscos de uma nova experiência, maior será a probabilidade de fracassarmos, mas, ao mesmo tempo, de atingir o que queremos. Não é fácil acertar quando experimentamos pela primeira vez. Mas, se tivermos medo de fracassar, teremos medo de correr riscos e ficaremos estagnados. Samuel Beckett, dramaturgo irlandês, encoraja-nos com o revigorante ar do fracasso. Tentar de novo, fracassar de novo, fracassar melhor.

O crescimento requer uma disponibilidade para correr o risco do fracasso, porém, fracasso não significa, necessariamente, derrota. Acreditar que por ter falhado em algumas tentativas “somos um fracasso” representa uma atitude de derrota. Mesmo quando temos muita experiência, também “comemos bola”!

O homem é aquele ser que sabe que morre, embora não queira saber. E também morre de medo de morrer. A presença da morte pode nos unir por laços que vão além dos institucionalizados. No entanto, nem sempre essa presença nos articula e, em geral, tratamos de esquecê-la, como se não passasse de um acidente inesperado. Como diria o filósofo Blaise Pascal: “Os homens, não tendo podido curar a morte, a miséria, a ignorância, resolveram, para se tornarem felizes, não pensar nisso”.

O processo psicanalítico está ligado às realizações criativas que envolvem, sobretudo, o trabalho de luto, a dor da renúncia a certos desejos de que o sujeito resiste em abrir mão. Por isso, a psicanálise desperta tanto medo. O tratamento psicanalítico assim como a vida é uma situação de crescimento e perda que exige coragem.

Da vida, restam-nos parcas, mas preciosas certezas: “a certeza de que estamos sempre começando… a certeza de que precisamos continuar… a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar… Portanto, devemos fazer da interrupção um caminho novo… da queda, um passo de dança… do medo, uma escada… do sonho, uma ponte… da procura, um encontro…”, sugeriria nosso poeta Fernando Pessoa.