Inveja

A inveja, velha dama indigna, de má reputação e péssimo caráter, tem por símbolo a serpente. Um dos sete pecados capitais, sorrateira e causadora de extrema vergonha, é capaz, com um simples olhar, de murchar plantas e secar pimenteiras. Melanie Klein foi uma das psicanalistas que mais se debruçou na observação e compreensão desse sentimento. Para ela, durante toda a nossa existência deparamos com a inveja, que é bem mais corriqueira do que gostaríamos, entranhada que está no seio da família e no coração de todos nós.

Santo Tomás de Aquino definiu a inveja como tristitia de alienis bonis, ou seja, tristeza em relação às coisas boas dos outros. A inveja é aborrecimento com a competência de algum aspecto valorizado no outro. O atributo invejado, sempre admirado – por exemplo, a generosidade, a tolerância, a sabedoria, a coragem –, é aquilo que sinto que o outro possui, mas do qual não me sinto possuidor nem capaz de vir a possuir – trata-se, portanto, de algo inacessível. A premissa é: se o outro possui e eu não, não aguento essa falta e quero destruir no outro o que não tenho, denegrindo-o, desprezando-o. Se eu não possuo, o outro também não deve possuir.

Um homem pode querer destruir, por meio da desqualificação, do desprezo, a possibilidade de gestação da mulher; uma filha pode invejar algum aspecto da vida adulta da mãe ao qual ainda não tem acesso, como a autonomia, a experiência, a sexualidade, e por isso denegrir esses aspectos na mãe; uma jovem pode ficar com o namorado da amiga não porque o escolheu para si, e sim porque não quer que ele fique com a outra; os pais podem invejar a juventude de um filho; uma mulher infértil pode invejar a fertilidade de uma amiga, e assim por diante.

Não raramente, a inveja é confundida com a admiração, e aqui se faz necessária uma distinção. Um dos destinos da admiração pode ser o desejo de se assemelhar ao outro admirado, porém o sentimento invejoso, ao contrário, tem a intenção de danificar, espoliar, despojar, prejudicar, saquear, privar ilegitimamente algum aspecto admirado no outro. O sujeito possuído de inveja deseja ridicularizar, inferiorizar, ou, sutilmente, ignorar aspectos da pessoa invejada.

Assim, a inveja é expressão dos impulsos destrutivos: é ódio, agressão, desejo de fracasso, de sofrimento, de aniquilamento do outro admirado. É contentamento com a desgraça alheia. Poderíamos dizer que se trata de uma identificação pelo negativo.

Apesar de todas as palavras que podemos atribuir ao sentimento de inveja, ele é, como diria Nietzsche, um sentimento “humano, demasiadamente humano”.