Quem é o culpado?

Quem ainda não experimentou momentos de culpa ou não encontrou na família alguém preso por uma culpabilidade sem causa e sem conserto? Aquele que se sente sempre o culpado de todas as desgraças dos outros, mesmo sem o ser? Amor e ódio, paixão e melancolia parecem estar na origem de uma culpabilidade que faz com que nos sintamos mais culpados do que todas as outras pessoas juntas. É o que chamamos de expiação da culpa que, em sua crueldade, provoca atos de punição, de autoflagelação, de sacrifício.

Freud diz que a marca distintiva da nossa humanização é o superego, aquele agente vigilante, e que o decorrente sentimento de culpa é a garantia do salto da natureza para a cultura. Se, por um lado, o sentimento de culpa é um elemento fundamental na gênese do humano, por outro, em excesso atenua o vigor da vida, como na melancolia, ou seja, apequena e enfraquece o que é próprio do humano, o desejo.

Esse pensamento freudiano sobre a culpabilidade do desejo, tão bem tratado na antiguidade, em Fedra, ressoa os ecos da crítica do filósofo Nietzsche a respeito da função inibidora ou, até mesmo, paralisante da culpabilidade explorada pela moral e pelas religiões, que se fundam numa culpabilidade atávica – o pecado. Os religiosos maníacos em patrulhar os vícios e as virtudes, as paixões e os desejos, e crentes de sua “pureza e castidade”, triunfam ao apontar o dedo acusador para o pecador, visto como verme miserável e sujo.

O ideal de perfeição, característica do contemporâneo, contribui para o desenvolvimento da culpa na medida em que o aparecimento de qualquer erro, inerente a todo processo de aprendizagem, é sentido como um fracasso.

Além disso, a religião da perfeição exacerba as frustrações, pois o sujeito se vê insuficiente para realizar seus projetos de acordo com expectativas tão pungentes. Instala-se então um círculo vicioso de insatisfação, frustração, culpa e, por fim, necessidade de atribuir a alguém ou a alguma circunstância os supostos fracassos. É a caça de um culpado com o propósito de fugir de si mesmo – auto alienação –, e de se aliviar da própria culpa.

Assim, para obtermos a nossa dramática liberdade, sempre tão precária, cabe-nos desenvolver o árduo trabalho de articulação entre a culpa neurótica e a responsabilidade, ou seja, a transformação da alienação e da expiação em responsabilidade pelos nossos desejos. E, talvez, ainda tenhamos que cuidar do risco de nos sentirmos culpados por não mais carregar a cruz da culpabilidade!