Abuso Sexual

O abuso sexual corresponde aos atos impostos ao menor por um adulto, que excede seu poder sobre aquele sob a forma de toques, assédio, voyerismo, sedução, estupro e exploração sexual. É a sexualidade como abuso. É o sexo forçado e não consentido. É a manipulação do mais fraco. É, enfim, a amostra nua e crua da desmedida humana forçando os limites da civilização, numa mistura de crueldade, violência, sofrimento e alienação.

O desequilíbrio entre as partes é regra nessa zona obscura: o(a) professor(a) que seduz a(o) aluna(o), o padrasto que estupra a enteada etc.

Nesse contexto, o mais perturbador é acompanhar a criança na sexualidade forçada, pois aí a desigualdade atinge o ponto máximo.

O abuso sexual intrafamiliar é, psicanaliticamente falando, a consumação do incesto, o “terror” sendo vivenciado. Ele envolve a sexualidade do adulto e, também, a sexualidade da criança, que se sente, ao mesmo tempo, inocente e culpada, devido à concretização, tão abrupta, de suas fantasias agressivas e eróticas dirigidas ao casal parental. É o trágico que se instala ao confundirmos a “linguagem da ternura” da criança com a “linguagem da paixão” do adulto, afirma o psicanalista Sandór Ferenczi.

Essa distinção diz respeito ao fato de que as crianças brincam com a ideia de ocuparem o lugar do progenitor do mesmo sexo, para tornar-se o cônjuge do sexo oposto, mas, vale ressaltar, apenas na imaginação! Se, no momento dessa fase de ternura, impõe-se às crianças um amor diferente daquele que elas suportam, teremos, inevitavelmente, uma ocorrência traumática, de ordem sexual, que acarretará graves consequências psíquicas. Podemos ter como desdobramentos a depressão, a melancolia, a síndrome da criança adaptada e passiva, lesada em sua autoestima e acossada, ou futuros adultos também “abusadores”, por meio do mecanismo de identificação com o agressor.

O tabu do incesto é o primeiro “não” da biologia que possibilita o nascimento da cultura. É convicção, entre os antropólogos, que a proibição do incesto significa que há regras fundamentais que são da esfera da cultura, e não se reduzem ao mundo natural. Na psicanálise, grosso modo, a proibição do incesto significa a aceitação de limites aos nossos desejos: saber que não posso ser e ter tudo, e que para realizar de modo satisfatório o que posso ser é preciso abrir mão de alguma coisa.

O abuso sexual contra crianças e adolescentes é um dos segredos de família mais bem guardados. É o conhecido fenômeno do “desmentido do acontecimento” – a afirmação de que nada aconteceu e de que nada deve ser dito – precisamente no quadro das seduções incestuosas. É de esperar que, nessas famílias, o tabu do incesto inexista, porém, é a palavra sobre o ato que é tabu. E é esse tabu que protege o totem.

O tratamento psicanalítico, por sua característica de autoridade e confiabilidade, pode funcionar como um espaço para a criança ou o adolescente ser escutado no seu trauma, de modo a propiciar a ruptura do pacto da mordaça que envolve as situações de abuso sexual, principalmente as que ocorrem no seio da família e foram cometidas pelos próprios pais.

Essas experiências trágicas precisam ser pensadas e trabalhadas numa terapia, pois a possibilidade de sentir, interpretar, perceber as próprias necessidades e desejos – em suma, a possibilidade de ser alguém – depende crucialmente do desenvolvimento da autoconfiança, do autorespeito e da autoestima.